Palestra

Como crianças, grande parte de nosso senso de segurança vem da nossa conexão com os outros membros da nossa família. Desejamos saber que eles se preocupam conosco e estarão disponíveis quando precisarmos deles.

Não há nada que agrada um pai mais do que saber que os seus filhos gostam de estar com ele, e que eles confiam nele, contam com ele e aprendem dele. Da mesma forma Deus, nosso Pai celestial, nos convida a nos chegar a Ele. Abba é o termo aramaico que as crianças judaicas usam para se remeter aos seus pais. O equivalente português para abba seria papai ou paizinho.

Em Romanos 8:15, o apóstolo Paulo disse que, porque somos filhos adotados por Deus, podemos clamar “Abba, Pai.” Encorajando-nos a nos remeter a Ele com um nome tão carinhoso, Deus não apenas nos convida para nos chegarmos a Ele, mas Ele abre os seus largos braços e nos motiva para a intimidade com Ele. Ele não é um Pai distante, rígido. Ele é o nosso Papai celestial que deseja que nós O conheçamos.

Mas para onde devemos ir para aprender como acessar uma conexão de oração satisfatória com o nosso Pai celestial? A resposta se encontra em observar a vida de oração de Seu Filho.

I. A prioridade dada por Jesus à oração

Em Marcos 1:35-39, vemos a prioridade que Jesus dava à oração. Depois de um tempo exaustivo de cura de pessoas doentes e possessas por demônios até tarde da noite, Jesus acordou cedo de manhã, foi para um lugar solitário e orou. Parece que Jesus usou esse tempo para recobrar o seu eqüilíbrio espiritual. Pedro interrompeu o tempo devocional de Jesus para expressar as demandas adicionais da multidão necessitada. Ao invés de responder à necessidade imediata, o Senhor reafirmou um compromisso de alcance maior em outras cidades.

Uma olhada mais atenta para o texto vai revelar os processos internos da vida devocional do nosso próprio Senhor.

  1. Buscando isolamento e comunhão

    “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava.” (Marcos 1:35).

    Por que Jesus Cristo precisava de uma hora silenciosa? Todos nós estamos conscientes de nossas próprias fraquezas e pecados. A necessidade de purificação e renovação é muitas vezes a necessidade sentida pelo crente comprometido. Mas a Bíblia ensina a falta de pecaminosidade do nosso Senhor – Ele é “Aquele que não conheceu pecado” (2Co 5:21). Então, por que Jesus vai a um lugar solitário, enquanto os discípulos estavam dormindo?

    Ao longo do seu ministério na Terra, o Senhor Jesus escolheu limitar o exercício de seus atributos divinos. Ele foi completamente Deus, mas escolheu depender do Pai e do Espírito santo residente mele que trabalhava através dEle. Ele foi no lugar solitário para nos mostrar como devemos depender de Deus. Essa dependência pode ser vista pela forma como Jesus buscava momentos a sós com o Seu Pai. O termo traduzido por “lugar solitário” significa “um deserto, vastidão, região não habitada.”

    Depois de interações emocionais tão dinâmicas quanto a cura de coxos e doentes, Cristo necessitava da solidão para tornar a comunhão com o Pai mais efetiva.

    A caminhada da fé requer chegar repetidas vezes a Deus para obter a Sua direção singular. O tempo de Jesus a sós com Deus redirecionou a Sua visão das necessidades locais para um alcance maior.

  2. Dando ouvidos à direção de Deus em meio à distração

    “Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele estavam. Tendo-o encontrado, lhe disseram: Todos te buscam. Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim” (Mc 1:36-38).

    A palavra “encontraram,” no versículo 37, é mais bem traduzida por “caçaram.” Será que você consegue imaginar um cenário mais irritante? Pedro pensava que sabia melhor como Cristo deveria passar o Seu dia. E ele estava disposto até a interromper o tempo de oração do Senhor para oferecer o seu conselho. A necessidade que Simão Pedro estava expressando era claramente urgente: “Todo mundo está à Tua procura.”

    Ninguém que esteja ativo no ministério (seja em tempo integral ou como um voluntário) escapa da pressão de certos “grupos de interesse” no ministério. Suas necessidades são muitas vezes válidas, e às vezes eles têm representantes que pressionam por atenção imediata. Entretanto veja o que Jesus fez. Ele não estava preocupado em ser percebido como Alguém que não respondia a necessidades imediatas. Tendo apenas uma quantidade de tempo e energia limitada, Ele recebeu direção do Seu Pai para ir para outro lugar.

    Você poderia pensar que a hora silenciosa de Jesus o teria feito mais sensível às pessoas que estavam bem ao seu lado. Mas ir ao encontro apenas das necessidades que estejam imediatamente diante de nós é ignorar a preocupação ampla por aqueles que estão perdidos. Somente o tempo com o Seu Pai pôde trazer Jesus de volta ao Seu propósito em vir para o mundo: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19:10).

  3. Executando a aplicação

“Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios” (Mc 1:39).

É fácil passar batido na significância do último versículo dessa parte. Não se trata apenas de uma revisão do que foi dito no versículo anterior. Está longe disso! O versículo 39 é o propósito da passagem inteira. Jesus fez realmente o que disse que iria fazer. Ele foi até as sinagogas e pregou.

A palavra “pregar” é usada repetidas vezes ao longo das páginas do Novo Testamento, na medida em que os apóstolos copiavam o padrão do Senhor para a expansão das boas novas em círculos cada vez mais amplos de alcance. A área almejada por Jesus para o ministério foi expandida para incluir “toda a Galiléia”. Mais tarde, na medida em que os Seus discípulos seguiram os Seus passos, ela seria estendida para “até aos confins da terra.” (At 1:8)

É importante aplicar o que resulta do nosso tempo de oração. A comunhão com Cristo que seja significativa acontece quando seguimos o Seu exemplo (1 Pedro 2:21) e aplicamos a Sua Palavra no poder do Espírito.

II. Uma abordagem útil da oração

Um acróstico que serve para guiar um momento de oração equilibrado é a palavra ACTS [ATOS]. Cada letra representa um componente chave de resposta a Deus em oração: adoração, confissão, tendo gratidão, e súplica. Vamos examinar brevemente cada uma delas, para ver como cada uma se encaixa em uma vida de oração viva.

  1. Adoração: Adorando a Deus por quem Ele é

    À medida que você reflete sobre o que aprendeu do estudo, conte a Deus o que você aprecia no Seu caráter. A palavra worship [adoração], em inglês, compõe-se de “worth[valor]-ship” e significa reconhecer a dignidade e mérito de algo. É o que os anjos e seres humanos redimidos expressam a Deus nos Céus, e é nosso privilégio fazer isso na Terra: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, [...]” (Ap 4:11).

  2. Confissão: Reconhecendo o pecado

    Quando recebemos a Cristo como Salvador e Senhor, somos purificados de todos os nossos pecados – passados, presentes e futuros - pois nosso estado é santo diante de Deus. Entretanto, ainda temos uma natureza pecaminosa que é capaz de desobediência. Quando escolhemos desobedecer a Deus, nosso coração pode se tornar espiritualmente calejado.

    Por isso, para manter nossos corações abertos para a presença de Deus, necessitamos confessar nosso pecado periodicamente a Deus. A palavra “confissão” significa, no Novo Testamento, “dizer a mesma coisa que,” ou “concordar com” Deus. Essa é a hora em que nenhuma tentativa de racionalização deveria ser feita. Ao invés disso, devemos ser abertos e honestos com Deus. O resultado será um senso de purificação e empoderamento que somente o sangue de Cristo pode trazer.

  3. Tendo Gratidão: Agradecendo a Deus por Sua graça

    A gratidão se encontra no alto da lista de virtudes na vida cristã. Ao registrar a queda do homem para longe de Deus, Paulo providencia uma lista de pecados que caracterizam a queda na depravação. Surpreendentemente, o apóstolo acrescenta à lista: “[...] nem lhe deram graças” (Rm 1:21).

    Ser um crente em Jesus Cristo é ser um vaso do favor imerecido de Deus. Na medida em que nos colocamos na comporta de entrada da bênção de Deus, devemos reconhecer aqueles respostas da graça, sempre que eles vêm a nós. Essa pode ser uma grande oportunidade para “contar nossas bênçãos” em uma hora predeterminada todos os dias.

  4. Súplica: Pedindo coisas a Deus

As crianças podem ser incrivelmente suplicantes. Entretanto, o pai e mãe amorosos ficam contentes em ir ao encontro desses pedidos. Você já notou como é gratificante agradar crianças pequenas com presentes inesperados? Jesus pôs essa idéia numa perspectiva espiritual quando disse: “[...] se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? [...] Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lc 11.11, 13).

A súplica é tornar as necessidades conhecidas ao nosso Pai dos Céus, que se preocupa e está desejoso de responder de acordo com a Sua vontade.



III. Oração como um estilo de vida

Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Se vemos nossa hora silenciosa devocional apenas como um oásis espiritual uma vez por dia, podemos cair na armadilha de compartimentalizar nossa vida spiritual.

Do Jardim do Éden até agora, Deus desejou andar com o Seu povo na jornada da vida (Gênesis 3:8). Então, é essencial carregar o que aprendemos da nossa leitura da Bíblia e oração conosco, ao longo de todo o dia.

IV. Mantendo um diálogo divino ao longo do dia (Lucas 24: 13-32)

O encontro do Nosso Senhor com os dois homens que estavam caminhando na Estrada de Emaús é cheio de insights (perspicásia ou percepção) sobre como manter um diálogo com Deus ao longo do dia.

  1. Encontrando Jesus nos problemas da vida real

    “Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldéia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas. Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer” (Lc 24:13-16).

    Pouco se sabe sobre os dois homens que caminhavam pela estrada batida de Jerusalém para a vila de Emaús. Mas a Bíblia deixa bem claro que eles estavam preocupados. Eles estavam experimentando um “conflito interno,” uma luta emocional baseada em uma experiência de vida muito decepcionante. Entretanto, eles meditaram sobre o problema no contexto de um amigo de confiança. Nós, seres humanos somos, por natureza, solucionadores de problemas e usualmente não o fazemos sozinhos.

    Foi no contexto de uma necessidade humana percebida que Jesus abordou os dois homens, enquanto caminhavam. Que palavras maravilhosas: Jesus se aproximou e caminhou com eles! O Cristo ressuscitado deseja realmente invadir nossas circunstâncias humanas e manter um diálogo. A vida é uma jornada e Cristo deseja ser nosso companheiro nela, não apenas Alguém com o qual conversamos na última parada para descanso.

  2. Tentando ver o sentido dos caminhos de Deus

    “Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. Um, porém, chamado Cleopas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias?

    Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive. De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram” (Lc 24:17-24).

    Em resposta à questão de Cristo, os dois entraram em detalhes sobre o que os estava preocupando. O seu resumo é uma revisão concisa da esperança de que Jesus de Nazaré fosse o Messias que iria redimir a nação de Israel. Ao invés disso, Ele foi morto da forma mais cruel de execução – a crucificação. E para agitar ainda mais os seus pensamentos, houve relatos de que o Seu túmulo estava vazio e de que houve a aparição de um mensageiro angélico.

    Os dois homens que caminhavam perto do nosso Senhor ficaram perplexos com as esperanças crescentes que viraram sonhos despedaçados. E a sua experiência é semelhante ao que muitos de nós experimentaram.

    Ser humano é olhar para os eventos humanos através do buraco da fechadura. Todos nós somos finitos, em todos os casos, só podemos captar parte do quadro completo.

    Então, muitas vezes o que acreditamos que a Bíblia ensine não faz sentido na nossa perspectiva limitada de uma tragédia aparente. Seja pelas nossas expectativas de como Deus devesse responder a uma oração ou como vemos os infortúnios aparentes da vida, somos, na melhor das hipóteses, limitados em nossa compreensão.

    Mas Jesus quer que Lhe contemos nossas preocupações, na medida em que processamos nossas experiências. Ele tem um ouvido atento e está clente com os detalhes das nossas vidas. É por causa do nosso relacionamento único com Cristo que a nosso relação com Ele por meio da oração deve nos acompanhar em forma de experiências cotidianas.

  3. Deixando Jesus se explicar

    “Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24:25-27).

    A resposta de nosso Senhor parece abrupta. Mas na realidade, essa situação é um estudo de caso em educação. Veja a palavra “néscios”. Trata-se de uma expressão que literalmente quer dizer “desprovidos de conhecimento”. Os homens da Estrada de Emaús estavam limitados por disporem apenas de informações limitadas.

    “Tardos de coração para crer” tem a conotação de “vagarosos e lentos” em confiar em Deus no que Ele declarou. Jesus então fornece o único remédio para a ignorância espiritual, e esse é o de colher mais informações. O Professor focou a atenção deles em passagens chave do Antigo Testamento, que explicam que o Messias tinha que sofrer antes de ser glorificado.

    A lição para nós hoje é que, quando lutamos contra uma grande decepção, temos que manter em mente que é possível que nos faltem informações completas para vermos sentido naquilo naquela hora. Na medida em que a vida prossegue, o Senhor poderá providenciar pessoas e outras informações para encerrar o problema. Mas em alguns casos, só vamos encontrar a resposta, quando encontrarmos com Cristo face a face na eternidade. Entretanto, porque a vida na Terra é uma espécie de campo de treinamento, é essencial ser aberto para o aprendizado e estar em contato constante com o Professor, a fim de que nossa fé e conhecimento possam crescer.

  4. Aprendendo a manter a conversação

    “Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, fez ele menção de passar adiante. Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles” (Lc 24:28-29).

    Às vezes, quando alcançamos certo destino, um companheiro de caminhada inesperado se acabou se tornando um amigo e não queremos que ele se vá. Os dois viajantes tinham vários quilômetros pela frente para ouvir o que esse “estranho misterioso” tinha para dizer, e eles desejavam ouvir mais. “Fique conosco,” foi a resposta deles. Eles desejavam mostrar hospitalidade Àquele que havia fornecido um discernimento tão grande da profecia messiânica.

    Há circunstâncias em nossas vidas que alimentam, ou então, militam contra o desenvolvimento de nossas vidas espirituais. A chave é saber o que está acontecendo quando começamos a perder encotros com o Senhor e saber como reestabelecer nossa proximidade para com Ele.

  5. Respondendo a vislumbres da atividade divina

“E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lc 24:30-32).

De forma evocativa da céia final de Jesus, houve a quebra e bênção do pão no jantar daquela noite. Conta-se que os seus olhos foram abertos e eles o reconheceram.

Enquanto anteriormente os seus olhas foram “impedidos” de reconhecê-lO, nesse momento, os seus olhos foram abertos. É interessante que a palavra para “abrir” é composta pela mesma raiz que as palavras “néscio” e “ignorante.” Significa “penetrar a mente.” Uma vez que as suas mentes entenderam quem Ele era, eles o reconheceram de encontros prévios.

Surpreendentemente, o desaparecimento sobrenatural do nosso Senhor não inspirou nenhum comentário registrado entre os dois. Ao invés disso, eles refletiram sobre como foi estar na estrada e em diálogo com Jesus sobre as Escrituras.

Seus corações estavam inflamados com discernimento sobrenatural, já que Jesus mesmo havia explicado o Antigo Testamento ao longo do caminho. Usa-se a mesma palavra que a “abertura” das Escrituras para a sua compreensão, quando eles o reconhecem no jantar daquela noite.

Reconhecer a Cristo nas Escrituras e em experiências cotidianas deve ser um processo que se dá ao longo de todo o dia, não apenas um evento isolado.

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