Palestra

Introdução

Na lição a seguir, introduzimos a literatura sapiencial do AT. Quando nos referimos a esses livros como livros sapienciais, é importante entender que todo o AT e NT contém sabedoria. Do Gênesis a Malaquias e de Mateus a Apocalipse, os escritores nos ensinam que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Mas os livros do AT de Jó, Provérbios e Eclesiastes focam tanto na sabedoria que, na verdade os chamamos de “literatura sapiencial.” Os sábios do AT têm uma realidade muito específica em mente, quando eles falam de sabedoria, e quando pomos a perder essa realidade, deixamos de aproveitar muitas das suas preciosas orientações.

A ideia hebraica de sabedoria

A palavra que se traduz como sabedoria na Bíblia é a palavra hebraica chokmâh. Ela é usada por todo o AT para falar sobre pessoas que demonstraram habilidade na realização de algo. Ela descreve o trabalho daquelas pessoas que faziam bordados nas vestimentas dos sacerdotes lá no livro do Êxodo. Era para essas vestimentas serem bonitas porque refletiam a natureza de Deus e Sua obra. Assim, Deus disse para Moisés selecionar pessoas que bordavam com châkam. Elas bordavam com grande habilidade. As outras pessoas que faziam bordados olhariam para as vestimentas do sacerdote e diriam: “Isso é que é bordado. Eu até faço bordado, mas não como esse. Ele demonstra um nível de habilidade com o qual eu só posso sonhar.” Também o trabalho dos carpinteiros e pais e líderes era considerado feito com châkam.

No livro de Provérbios, vemos a palavra sabedoria reiteradas vezes. Ela é usada para descrever como as pessoas desenvolvem muitas das funções da vida com habilidade. Mas quando esses provérbios se referem a uma pessoa como sábia, eles descrevem alguém que vive a sua vida com châkam. Da mesma forma que uma pessoa pode olhar para o manto do sacerdote e dizer “Isso é que é trabalho bem feito,” ela pode olhar para uma vida humana que foi vivida com sabedoria e dizer: “É assim que a vida deve ser vivida.” É por viver a sua vida com chokmâh, que uma pessoa é conhecida como sendo sábia. Pessoas sábias aprenderam a viver de forma habilidosa, da forma como Deus pretendeu que vivêssemos.

No AT, uma vida sábia requer compromisso com a lei de Deus. Assim, quando você lê sobre a sabedoria nos livros de Provérbios e Eclesiastes e Jó, eles estão se referindo a pessoas que aplicaram os ensinamentos de Deus de forma habilidosa nas suas vidas. Eis porque Provérbios 1.7 e 9.10 afirma: “O temor do SENHOR é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.” Apenas quando vemos Deus como quem Ele é, e vivemos como Ele pretende, é que temos alguma esperança de viver uma vida sábia.

Provérbios

O livro de Provérbios é essencialmente uma coletânea de ditos, provenientes também de outros sábios. Eis porque você vê declarações no livro de Provérbios que introduzem outros que escreveram ou declararam alguns desses ditos sábios. Independentemente de quem os tenha escrito ou coletado, cremos que sejam palavras de autoridade, porque Deus inspirou todas as Escrituras. Apreciamos as observações astutas dos sábios sobre a vida e seus provérbios belamente elaborados, mas nunca nos esquecemos que a sabedoria que eles contém vêm de uma fonte muito mais sábia.

Provérbios 1.1-7 introduz o propósito dessas coletâneas de provérbios. Salomão usou uma série de infinitivos para estabelecer as razões, por que essas declarações proverbiais são coletadas. A lista inclui: “Para aprender a sabedoria e o ensino; para entender as palavras de inteligência; para obter o ensino do bom proceder [...], para entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios” (ARA).

Essa lista inclui duas razões para reunir esses provérbios em um livro. Uma delas é para providenciar um catálogo de ditos sábios para nos guiar na vida. Mas em segundo lugar, os provérbios funcionam como uma academia de ginástica mental. Os termos “saber,” “discernir,” “receber,” “dar prudência” e “entender” são palavras de ação. Se é para entendermos a “sabedoria,” “ensino,” “palavras de inteligência,” “provérbios” e “enigmas dos sábios,” temos que desenvolver habilidades mentais. A palavra provérbio também se traduz por “anedota” e “parábola.” A ideia de um motejo (Isaías 14.4) é que ele estende o processo de pensamento do leitor de uma maneira provocativa ou desafiadora. Essa literatura exercita a mente e é designada para construir habilidade e força mental.

Escrever um provérbio demandava duas habilidades. Primeiro os sábios faziam uma observação perspicaz sobre a vida. Na medida em que eles observavam, formavam ideias sobre o que viam. Depois eles confeccionavam um provérbio a partir dessa observação. Porque os escritores queriam que os seus leitores desenvolvessem habilidades mentais, os seus provérbios raramente eram fáceis de interpretar. Assim, quando você lê um provérbio e ele não faz sentido imediatamente para você, isso é intencional. Um leitor preguiçoso vai pôr a perder o benefício de muitos provérbios, mas o habilidoso irá aprender a viver uma vida mais hábil.

O livro é intitulado Provérbios e não Promessas. Por exemplo, Provérbios 22.6, “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (ARA) é um provérbio. Não se trata de uma promessa. Os provérbios são observações sábias sobre como a vida funciona. Provérbios 22.6 nos ensina que podemos aumentar a probabilidade de uma criança não se afastar do caminho de Deus, se a criamos dessa forma. Mas um provérbio não garante resultados; ele não faz promessas. Deus nos dá liberdade de escolha e a vida nem sempre é previsível e controlável. Mas podemos aumentar a probabilidade das coisas acontecerem, e esses provérbios nos ensinam a viver de tal forma que aumentamos a probabilidade de obter o que desejamos da vida.

O livro de Provérbios contém duas seções. Os capítulos 1–9 introduzem as declarações proverbiais.

Em seguida, os provérbios de verdade começam no capítulo 10 e vão até o capítulo 31. O livro todo é escrito em forma de poesia e é literatura sapiencial, mas a coletânea de afirmações proverbiais se iniciam apenas no capítulo 10.

Eclesiastes

Eclesiastes é outro livro que requer todo o nosso empenho mental; e alguns leitores se perguntam, qual é a do escritor no livro. Ele descreve o quanto a vida é árdua e faz a vida parecer bastante desprovida de esperança. Sua temática é introduzida em Eclesiastes 1.2: “vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (ARA). Ou, como a Nova Versão Internacional o traduz: “‘Que grande inutilidade!’, diz o mestre. ‘Que grande inutilidade! Nada faz sentido!’” A vida é como a tecnologia moderna. Assim que você a desvenda, ela muda. Você faz as coisas caminharem na direção certa e a vida dá uma guinada de 180º.

Eclesiastes está cheio de guinadas e viradas e ruas sem saída e contradições. Você lê uma afirmação que diz uma coisa, e a afirmação seguinte diz exatamente o oposto. Trata-se de um livro preocupante. Sugeriu-se que o escritor tenha projetado o livro, de forma muito inteligente, para que seja lido da mesma forma que se vive a vida. As ruas sem saída e contradições no livro espelham aquelas da vida.

Pense na estrutura de Eclesiastes. A primeira seção em 1.1–11.6 diz que a vida está além da compreensão. Nunca vamos compreendê-la inteiramente. Assim, temos que aprender a viver a vida de forma alegre em um mundo que nunca vamos compreender completamente. A segunda parte do livro (11.7–12.8) diz que nunca vamos controlar a vida. Ela não está sob nosso controle. Dessa forma, temos que aprender a viver contentes em um mundo que não podemos controlar.

Temos aqui uma charada para exercitarmos nossa habilidade mental. Eclesiastes nos ensina que não podemos nem compreender, nem controlar a vida. Mas acabamos de ler que Provérbios diz que temos algum controle. Podemos compreender a vida o suficiente para vivermos de forma sábia. Provérbios apresenta uma abordagem “se/então” da vida e Eclesiastes apresenta uma abordagem “se/então quem sabe.”

Então, em qual livro devemos acreditar? Devemos acreditar em ambos. Se lermos Provérbios e Eclesiastes como as duas extremidades de um mesmo campo, temos uma compreensão mais ampla de como seja a vida. A pessoa sábia diz: “Tenho que viver a minha vida como Deus ensina, porque isso aumentará a probabilidade de que eu vá viver uma vida boa.” Mas a pessoa sábia também se dá conta de que hajam aspectos da vida que não poderemos entender; e nós nos damos conta de que não temos controle absoluto sobre a nossa própria vida e muito menos, sobre a vida dos outros. Acontecem coisas que não podemos entender ou controlar ou fixar.

Jó é o terceiro livro sapiencial; e ele debate a questão do porquê de pessoas boas e piedosas sofrerem. O livro inicia-se introduzindo Jó como um homem que é tão piedoso, que Satanás desafiou Deus a testá-lo para ver, se a sua fé é genuína. Deus permitiu que Satanás despojasse Jó de todos os seus recursos—incluindo a sua família e saúde—para ver se ele abandonaria o seu compromisso com Deus.

Os amigos de Jó vieram para consolar e aconselhá-lo. Eles tinham boas intenções, mas estavam desorientados em seus conselhos. Eles estavam convencidos de que Jó estava sofrendo, porque havia pecado. Na medida em que você lê os três diálogos entre Jó e seus amigos, a tensão vai aumentando. Os seus conselheiros tentam convencê-lo a confessar os seus pecados e Jó continua defendendo a sua inocência. Sabemos por que Jó está sofrendo, porque o autor de Jó nos conta o que está acontecendo no primeiro capítulo. Mas Jó e seus amigos estão encarando a vida da maneira como temos de processá-la. Restava-lhes tentar descobrir, por que Jó estava sofrendo. Quando lemos o livro a partir da perspectiva deles, podemos compreender, por que os debates são tão acalorados.

Os capítulos finais do livro (38–42) são devotados ao diálogo entre Deus e Jó. Deus disse para Jó que ele não estava sofrendo porque era mau, mas para um propósito muito mais alto. A justiça de Jó e sua fé em Deus foi testada de forma dolorosa e se provou genuína.

A maioria de nós já pensou em algum momento da vida que esteja sofrendo porque tenha ofendido a Deus. Ou, o que é pior, tiramos essa conclusão a respeito de outras pessoas. Os debates de Jó com os seus conselheiros deve nos ensinar que, quando encontramos sofrimento, não precisamos limitar a nossa explicação sobre as suas origens à maldade na vida do sofredor. Jó lutou pela sua fé na bondade de Deus e ele se queixou amargamente diante dele. Mas então, ele deu ouvidos ao conselho de Deus e restaurou a sua fé no seu bom Deus.

Conclusão

O desenvolvimento de habilidades demanda tempo e esforço. Carpinteiros, músicos, estudiosos ou pais desenvolveram essas habilidades. A literatura sapiencial do AT nos diz que a habilidade necessária para se viver uma vida sábia começa com a nossa reverência para com Deus. Estaremos mais aptos a andar bem pelos caminhos insondáveis e incontroláveis da vida, se desenvolvermos a habilidade de confiar em Deus e ler o mapa que Ele nos forneceu em Suas Escrituras Sagradas.

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