Palestra

Introdução. Nessa lição, vamos pesquisar os quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Vamos ver, por que temos quatro evangelhos e por que eles são diferentes. Também vamos estudar um pouco de cada um dos autores, seu propósito e seu
público-alvo.

I. Mateus e João: Escrevemos sobre o que experimentamos

Na lição um, vimos que o NT trata essencialmente de Jesus. Ele é a figura-chave. Nessa lição, vamos analisar os quatro evangelhos, que são a fonte essencial de informação que temos sobre a vida e ministério de Jesus, enquanto Ele esteve na terra.

A palavra evangelho significa “boas novas” e é um nome apropriado para os documentos que proclamam a mensagem de Jesus Cristo e Sua salvação.

Dois desses evangelhos, Mateus e João, foram escritos por testemunhas oculares. Eles estiveram com Jesus em pessoa.

Na verdade, João começou a sua primeira epístola, escrevendo: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida […] se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos” (ARA).

Que privilégio magnífico que foi. Assim, quando lemos o evangelho de João, estamos lendo o registro de alguém que esteve lá. O mesmo acontece com Mateus. Também poderíamos alegar que ele não havia ouvido o ensinamento de Jesus de outras pessoas. Essa era a sua própria recordação de uma experiência pessoal com Jesus.

II. Marcos e Lucas: Escrevemos sobre o que descobrimos

O evangelho de Marcos provavelmente foi escrito por um dos discípulos de Pedro e assim, nos fornece o registro de Pedro sobre a vida de Jesus. E Lucas nos fala que escreveu como historiador.

Ele introduziu o seu evangelho, informando-nos que, como para as testemunhas oculares que escreveram seu relato, “igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo” (Lc 1:2-4 ARA).

Lucas era um pesquisador. Ele não era um judeu, de modo que não tinha nenhum viés ético. Ele não havia sido um dos discípulos de Jesus, de modo que a sua versão nos mostra como uma pessoa de fora via Jesus.

III. Os Evangelhos Sinóticos

Três dos evangelhos – Mateus, Marcos e Lucas – são chamados de Evangelhos Sinóticos. Sinótico significa “ver junto.”

Embora cada evangelho apresente um registro preciso de Jesus, temos maior proveito, quando os lemos juntos e integramos o seu material, porque alguns incluem detalhes, outros não, e fornecem perspectivas diferentes sobre o ensinamento e ações de Jesus. Você obtém um quadro mais rico e profundo quando lê todos os três.

IV. O evangelho de João

João não faz parte dos evangelhos sinóticos. O evangelho de João é mais um tratado teológico, enquanto os sinóticos são mais biográficos.

João nos contou o seu propósito em João 20:31: “Estes [fatos], porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (ARA).

Ele estruturou o seu evangelho em torno de sete dos milagres de Jesus e os usou como evidências para dar suporte à sua alegação de que Jesus seja o Filho de Deus. Porque o seu evangelho inclui certo material que os sinóticos ignoram, João acrescenta uma contribuição essencial à nossa compreensão da vida de Jesus.

V. Por que os evangelhos são diferentes?

Lemos todos os quatro evangelhos para obter o quadro mais completo da vida de Jesus. Esperamos que eles tenham muitas similaridades, porque todos são sobre Jesus. Mas por que é que eles são diferentes? Quatro documentos foram escritos sobre o mesmo indivíduo, e, no entanto, encontramos eventos diferentes inclusos e até descrições diferentes dos mesmos eventos. Por exemplo, o Sermão da Montanha é registrado em Mateus 5–7 e Lucas 6. A versão de Mateus é bem mais longa. Essa é apenas uma das muitas diferenças que encontramos quando comparamos os registros dos evangelhos. Então nos perguntamos: “Por que é que os quatro evangelhos são diferentes?”

A. Quatro autores diferentes têm quatro perspectivas diferentes

Antes de tudo, os quatro evangelhos foram escritos por quatro pessoas diferentes, e cada autor tem a sua própria perspectiva. Suponha que você esteja escrevendo sobre um acidente automobilístico. Se você fosse perguntar a um guarda o que havia acontecido, ele provavelmente lhe diria qual foi a velocidade dos carros envolvidos, sobre faróis apagados, e outros detalhes sobre as condições de direção. Se, então, você perguntasse a um médico o que havia acontecido, ele poderia lhe dizer que um motorista havia quebrado a perna e uma passageira do outro carro, fraturado o seu maxilar. Essas duas pessoas estariam falando do mesmo evento, mas cada uma focaria no que era do seu interesse. Assim, você tem quatro autores diferentes escrevendo sobre os mesmos eventos, mas eles continuam quatro indivíduos que notaram coisas que os outros não observaram ou poderiam ter visto de outra forma.

B. Quatro públicos-alvo diferentes

A segunda razão, por que os evangelhos são diferentes é que Mateus, Marcos, Lucas e João tinham leitores diferentes em mente. Se uma aluna ingressante uma faculdade escrevesse uma carta para os seus pais sobre a sua experiência, ela lhes contaria o quão duro ela estava estudando e o quanto ela estava aprendendo. Se ela escrevesse para os seus amigos, poderia contar-lhes sobre os novos amigos que estava fazendo e as festas das quais estava participando. Ao ler as suas duas cartas, não a acusaríamos de estar sendo imprecisa ou desonesta. Na verdade, pelo fato de podermos ler as suas duas cartas, obtemos uma melhor compreensão da sua experiência no ensino superior. Nenhuma das duas cartas é mais ou menos verdadeira ou precisa, embora elas fossem diferentes.

C. Quatro propósitos diferentes

E, em terceiro lugar, cada escritor tinha um propósito diferente. Usaríamos um conjunto de credenciais ao nos candidatarmos para um emprego, e outro totalmente diferente, ao nos candidatarmos para a membresia numa equipe de boliche. Cada autor de evangelho apresentou Jesus de uma forma particular que era do interesse de seu público-alvo particular. Assim, se colocamos os quatro evangelhos lado a lado, vemos autores diferentes, com suas próprias perspectivas, escrevendo para pessoas diferentes e remetendo-nos aos seus interesses de leitor.

Lemos todos os quatro evangelhos para obter um quadro mais completo desse homem, chamado Jesus. Se nos limitamos a um só evangelho, pomos a perder o quadro mais amplo, mais completo de Sua pessoa e missão.

VI. Os autores dos evangelhos

A. Mateus era um publicano—um coletor de impostos. Ele seria uma das últimas pessoas que você esperaria que Jesus incluísse entre os Seus discípulos. Ele era um judeu vira-casaca, que trabalhava para os romanos. Mas Mateus tinha uma perspectiva única entre os discípulos de Jesus. Ele era um homem de negócios. Ele havia sido aceito recentemente de volta para seio do judaísmo, e ele foi um seguidor zeloso de Jesus. Ele teve uma perspectiva de Jesus que Deus obviamente achava que estávamos precisando. E foi assim que Mateus escreveu o seu evangelho.

B. Marcos foi um missionário que viajou com Paulo e Barnabé e acabou sendo adotado por Pedro como um dos seus discípulos. No final de sua vida, Paulo queria que Marcos se reunisse a ele em Roma, porque ele era um colaborador valioso no ministério. Ele provavelmente era um jovem quando Jesus estava na terra e poderia ter sido um de Seus seguidores. Ele foi discipulado por Barnabé por algum tempo, mas foi sob a tutela de Pedro que Marcos escreveu o seu evangelho.

C. Lucas foi um médico e pode ter examinado os milagres de cura de Jesus a partir dessa perspectiva. Como cientista da saúde, ele focava nas evidências e nas leis naturais. E ele era um gentio e não tinha o mesmo sentimento pela cultura judaica como outros escritores dos evangelhos. Como um dos companheiros de viagem de Paulo, ele foi exposto ao evangelismo em meio aos gentios e viu o poder de Deus para transformar vidas.

D. João foi um pescador, um trabalhador. Como Pedro, ele ganhava a vida no ao ar livre, no alto mar e compreendia a natureza, estando próximo dela. Algo nele atraía Jesus em especial e, junto com o seu irmão Tiago e Pedro, era um dos discípulos mais próximos de Jesus. Ele era conhecido como o discípulo amado (João 13:23) e, assim, tinha uma afeição especial pelo mestre. Ele havia sido um dos discípulos de João Batista, antes de ter tido um encontro com Jesus, de modo que tinha um compromisso religioso profundo.

E. Conclusão. Cada um desses quatro indivíduos entenderam Jesus à sua maneira particular, da mesma forma que fazemos hoje. A Bíblia nos diz que Deus nos criou à Sua imagem. Mas será que também não é verdade que a maior parte de nós temos uma tendência de criar Deus à nossa imagem? Deus se parece comigo; Deus se parece com você. Ao escreverem os seus evangelhos, cada um desses homens não teve como manter a sua própria personalidade, perspectiva e interesses de fora de sua narrativa.

VII. O público-alvo dos autores dos evangelhos

É importante que nos demos conta de que, embora os livros da Bíblia tivessem sido escritos para nós, eles não foram endereçados a nós. As mensagens de Deus são perenes, e é legítimo aplicar os seus ensinamentos aos dias de hoje. Mas cada autor—tanto no AT, quanto no NT—escreveu, inicialmente, para um público-alvo de seu próprio tempo. Assim, os evangelhos também são diferentes, por causa das pessoas para as quais foram escritos.

A. Leitores de Mateus. Mateus foi destinado essencialmente a judeus. Em seu evangelho, ele frequentemente se refere a Jesus como o “filho de Davi” e o “filho de Abraão,” para enfatizar a sua linhagem messiânica. Sempre de novo, Mateus mostra aos seus leitores judaicos, como Jesus cumpre as referências dos profetas ao Messias vindouro. Esses temas não repercutiriam junto aos gentios, mas os judeus teriam que vê-los como evidências de que Jesus era o rei que Ele alegava ser. Assim, Mateus enfatiza a ascendência judaica de Jesus.

B. Leitores de Marcos. Marcos escreveu essencialmente para romanos. Ele e Pedro estavam em Roma e os cidadãos romanos eram o seu foco essencial. Marcos interpreta palavras aramaicas para os seus leitores, porque, ao contrário do público judaica de Mateus, os romanos não podiam saber o que elas estavam querendo dizer. Há muito poucas referências em Marcos à lei judaica. Os romanos teriam dito que não havia lei judaica; que havia apenas a lei romana. Assim, você encontra sinais em Marcos de que ele não seja tanto um evangelho judaico, mas que seja mais focado nos romanos.

C. Leitores de Lucas. Lucas destinou o seu evangelho a um homem chamado Teófilo, mas ele foi obviamente compartilhado com outros leitores e parece ter sido escrito para um público grego. Lucas explica costumes, lugares e termos judaicos. Ele enfatiza o papel de Jesus como um professor honrado. Mais do que em qualquer outro evangelho, vemos Jesus como um mestre esplêndido. Sua habilidade em usar parábolas para esclarecer verdades e em persuadir os Seus opositores mostra o gênio de Jesus como pensador e mestre brilhante.

D. Leitores de João. O evangelho de João foi remetido a um público-alvo mais universal. Ele o escreveu mais tarde (provavelmente nos anos 90 d.C.), e no momento em que a igreja havia se expandido muito pelo Império Romano e pelo mundo mediterrâneo. A igreja agora era mais gentia do que judia, como era nos seus primórdios. Assim, pelo fato de João ter escrito para um público universal, o seu evangelho não tem evidências de etnia como a que vemos nos evangelhos sinóticos.

VIII. Os propósitos dos autores dos evangelhos

Uma terceira razão, por que os evangelhos são diferentes entre si, é que cada autor enfatizou um aspecto diferente da pessoa e ministério de Jesus.

A. A apresentação de Jesus por parte de Mateus. Pelo fato de ter escrito para judeus, Mateus focava no papel de Jesus como Messias judaico, o grande rei prometido a Davi e profetizado pelos profetas de Israel. A genealogia de Mateus o introduz como “Jesus Cristo, o filho de Davi, o filho de Abraão.” Abraão viveu antes de Davi, mas Mateus citou Davi antes, a fim de focar em Jesus como o filho de Davi, o grande rei de Israel. Era através da linhagem de Davi que o Messias de Israel nasceria. Além disso, Mateus nos diz, em 2:2, que os sábios vieram procurando “o recém-nascido Rei dos judeus.” Esses são apenas alguns dos sinais que Mateus usou para enfatizar o papel de Jesus como Messias de Israel.

B. O quadro que Marcos pinta de Jesus. Marcos apresenta Jesus como sendo o servo de Deus. E como servo de Deus, Ele também serviu ao povo de Deus. Jesus Cristo “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45 ARA). Jesus está muito ocupado servindo em Marcos. Ele usou a palavra imediatamente quarenta vezes nesse evangelho. Jesus passou rapidamente de um evento para o outro. Ele estava aqui para servir; Ele estava aqui para cumprir com a Sua missão como o servo de Deus e como servo do povo de Deus. Marcos também dá ênfase a Deus, servindo como um grande mestre, com trinta e sete referências ao Seu papel de mestre.

C. A apresentação que Lucas faz de Jesus. Como gentio, Lucas enfatizou Jesus como Salvador de todo o povo. Gentios, tanto quanto judeus. Enquanto a genealogia de Mateus só resgata Abraão, o patrono dos judeus, a genealogia de Lucas volta atrás até Adão, o patrono de toda a humanidade. Lucas muitas vezes apresenta Jesus em relacionamentos e em conversações com gentios. Assim, o evangelho de Lucas apresenta Jesus como um Salvador universal de toda a humanidade.

D. O foco de João em Jesus. João apresenta Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Em João 20:31, João declarou o seu propósito de escrever: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” O evangelho de João se constrói em torno de sete dos milagres de Jesus, mas ele os apresenta como “sinais,” uma palavra usada nas cortes jurídicas para indicar evidências que eram usadas para defender o cliente. João apresentou Jesus como Deus e colheu evidências para provar a sua asserção.

Conclusão

Quatro evangelhos. Eles são muito parecidos, mas de certas formas significativas, são bem diferentes. João disse que é impossível captar a vida de Jesus em um livro: “Se todas as coisas que Jesus fez fossem registradas, nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (veja 21:25). Enquanto você lê os evangelhos, não perca de vista o fato de que cada um desses quatro homens tinham um relacionamento com Jesus. Ele era o seu Salvador. Ele era o seu Messias. Ele era o seu Rei. Para Mateus e João, ele também era o seu mestre e o seu amigo. Cada um sabia, sem dúvida que Ele havia vindo para servi-los, morrendo por eles. Ele era Deus, e Ele acrescentou humanidade à Sua pessoa, porque apenas como Deus-homem, Ele poderia cumprir a Sua missão. Somente como Filho de Deus, Ele poderia nos salvar do nosso pecado.

Se você ainda não o recebeu como seu Salvador, você não deve ler esses evangelhos sem ser atingido pelo fato de que Deus veio à terra em pessoa e que morreu e ressurgiu, a fim de que você e eu pudéssemos ter um relacionamento pessoal com Ele. Não se esqueça disso.

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